Deus e a Vontade de Fazer o Bem

07 março 2010 comentários

Sobre as práticas orientais: não há dúvida, de todas as práticas religiosas, as mais realistas e sem dúvida mais eficiente estão às orientais.

Quem não deseja não se frustra. Quem não se apega, não sofre. Quem está vazio, sempre pode aprender novas coisas. Quem medita a vera, ou seja, quem controla o seu pensamento, controla melhor tudo em sua vida. Quem fica ali sentado, parado, não faz besteira.

Mas e daí?

Quando eu estiver morta também não me frustrarei. Quando estiver morta, também não sofrerei. Quando estiver morta, estarei totalmente parada, sob controle, fazendo zero de bobagem.

Ah, me perdoem, mas eu vim ao mundo pra viver, ou seja, pra fazer todas as bobagens a que tenho direito. Vim ao mundo pra me apegar, pra sofrer feito uma cadela, pra enlouquecer. Eu vim ao mundo para mais do que dançar: vim ao mundo para sambar. E se me dessem duas vidas, eu faria tudo de novo com muito prazer. Até no auge dos meus sofrimentos eu penso: como é maravilhoso viver. Viverei uma, cem, mil, milhões de vezes. E quero ser sempre assim, humana, tosca, incompleta, louca, insignificante, errada.

Relação com Deus não tenho não, mas gosto das poesias do cara. Veja os pássaros, as borboletas, tudo isso são poemas dele. Deus é um excelente poeta.

E Deus é Deus.

Uma força que criou o universo. Não é pouca coisa. Mas o ser humano, que é este bicho da cultura, que só sobreviveu graças à fala, o macaco pelado, tão frágil, decidiu que a força da natureza que criou tudo haveria de ser feito a sua imagem e semelhança.

E mais: inventou que ser humano era ser o máximo de sua criação. Que tudo o que fosse bom, renasceria um dia sendo gente- como prêmio de bom comportamento.

Ora, o Deus das girafas, dos cometas, das borboletas, dos marcianos, dos venusianos, dos moradores de outras galáxias, por que raios haveria de ter moral ou face humana? Por que esta mania- resultante direta do etnocentrismo- de achar que nós, humanos, é que somos os tais?

Acho o ser humano bacana. Mas acho os tigres muito mais bonitos. E acho as baleias muito mais sábias. E, em termos de organização social, sou pelos cupins.

Creio que a religião e este Deus inventado pelos humanos nada mais é do que isso: o medo do ser humano da morte e do desconhecido, a tentativa última de dar sentido ao que simplesmente tem outros sentidos que não o humano.

Quanto aos que dizem que há Deus porque há ordem, digamos que não existe uma ordem ordenada do jeito como nós humanos entendemos. Tanto é assim que as coisas têm o péssimo hábito de "fugir" ao controle, por melhores que sejam nossos cálculos e aparelhos medidores.

O caos é o reino de Deus. E Deus não o vê como caos, aliás, ele não fala nossa língua. Ele fala !@@#$#%243 de uma outra galáxia.

Fazer o Bem Não Importa A Quem
Fazer o Bem é uma questão total e amplamente humana.

Fazer o bem é bom, não porque depois a gente vá pro Céu- não existe tal coisa. Nem porque iremos "reencarnar" em espíritos superiores- não reencarnaremos exatamente, o máximo que irá acontecer é sermos alimento dos vermes e nascermos flores, com sorte, na defecação dos vermes sobre a terra que virá logo na seqüência.

Fazer o bem é bom porque nos faz sentir tranqüilidade, porque nós faz querer superar nossos limites e nos valoriza perante nós próprios. Fazer o bem deveria ser simplesmente da nossa natureza. Mas não é. Porque não existe natureza em ser humano. Existe relatividade e cultura. Sendo assim, que na falta de Deus, a lei nos acuda. E nos providencie mais e mais filósofos porque sem filosofia, definitivamente, as coisas irão de mal a periclitante.

Tenho a inclinação natural a fazer o bem. Mas sou infiel ao namorado. E não tenho paciência com a tia senil. Meu fazer o bem é tão relativo quanto tudo o mais.

Ora, estou aqui para confundir. Doutrinar? Deixo a encargo dos carolas. E dos caretas.

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