Quando dois deixam de ser um...

04 março 2010 2 comentários
Quando entramos num relacionamento, é comum que tenha havido uma “projeção” do que gostaríamos de viver com aquela pessoa, baseada nas expectativas que temos e alimentamos, e no que acreditamos ser a verdade da pessoa eleita. Normalmente essas expectativas não têm fundamento na realidade, mas no que gostaríamos que fosse. É, portanto, a chamada idealização.

Quando nos fundamentamos nessa idealização, perdemos a capacidade de avaliar objetivamente a situação. E, a cada sinal contrário que recebemos em relação ao que acreditamos ser verdadeiro, passamos a justificar. Passamos a inventar desculpas, na maioria das vezes para nós mesmos, para que aquilo não se transforme em óbice na concretização do relacionamento. Ou seja, negamos a realidade, forjamos nosso entendimento, subvertemos nossa visão.

Somos infinitamente pacientes, incrivelmente crédulos, anormalmente compreensivos, ao menos nesta situação. Talvez para justificar aquilo em que acreditamos, blindamos essa crença mesmo contra aquilo que poderia nos ajudar. A decisão já foi tomada, e não permitimos a nada nem ninguém, nem mesmo a nós mesmo, questionar essa decisão.

Mas há um limite. Isso é só uma fase. Que, como todas, acaba um dia. Chega o dia em que, como professa Stephen Covey (Os Sete Hábitos de Pessoas Muito Eficientes), “o que você é fala tão alto que não consigo ouvi-lo”. Ou seja, os débitos da conta emocional (ainda segundo Covey) estão tão grandes que só há espaço para a mágoa. E, nessa situação, a verdade de novo é sufocada, desta vez pela história negativa do relacionamento.

Quando casais estão nessa situação (não somente casais, mas pais e filhos, irmãos, etc.), a conversa já está se esgotando, quando ainda existe. Cada palavra, cada gesto, cada olhar é sempre uma confirmação da maldição, é sempre uma provocação, é sempre um mero reflexo do falência do relacionamento.

Na primeira situação, os casais querem que dê certo. Procuram enxergar somente o lado bom, mesmo que para isso tenham de fechar os olhos. Na segunda situação, as pessoas não querem mais compreender. Estão cansadas de decepções, estão decepcionadas com a falta de aderência daquele que escolheram com os padrões que acreditavam ver. E, da mesma forma com que começaram o relacionamento, o levam ao fim: negando a verdade, desta vez as virtudes da outra pessoa.

A lição, nunca aprendida, é que o começo precisa ser diferente, para não ter que ter fim. Precisamos ser mais honestos em nossa avaliações, e, muito mais importante, compartilhar nossas conclusões. Conversar francamente sobre o que sentimos é um hábito, que deve ser praticado sempre e sempre. No começo pode ser difícil, mas o hábito pode fazer que com fique cada vez mais fluido.

A conversa franca e aberta, como hábito, faz com que alguns comportamentos disfuncionais seja corrigidos, antes de assumirem proporções de guerra. Pode gerar a adesão do outro às nossas razões, ou vice-versa. Ou pode simplesmente resultar num acordo de convivência, que funciona também às maravilhas. Mas a grande contribuição da conversa, ao chamar a racionalidade para participar da relação, é não permitir que entulhos emocionais atrapalhem nossos caminhos (conjuntos ou não). A conversa subtrai a carga emocional negativa, aumenta a confiança entre as pessoas, potencializa a noção de interdependência e ajuda a eliminar o sentimento negativo de dependência (e, algumas vezes, de independência).

O ajuste das expectativas, gradual, sensato, racional, seguro, pode adiar um pouco o momento de nos tornarmos um só com outra pessoa. A adequação de nossa visão à realidade é uma conquista, somente aberta para aqueles que a almejam. Não é processo natural, e não é processo simples. Mas é viável. E pode ajudar a continuarmos sendo um só com outra pessoa.



Renato Okano
Efemérides

comentários: 2

Rô Zanchetta 04/03/2010 17:50

Quanta verdade!! Mas como é difícil não cair nessa armadilha.

Por isso, hoje tenho certas restrições à paixões. Quase sempre elas são baseadas nessas idealizações - nos apaixonamos pelo que projetamos e não pela pessoa.

É uma emoção deliciosa e vale muito a pena ser vivida, mas depois de uma certa idade é hora de botar os pés no chão e aproveitar a suavidade e companheirismo de um relacionamento maduro.

Rosicarmen 06/03/2010 23:01

Estou nessa fase de botar os pés no chão, como diz a Rô, estou no 2º casamento e tento não cometer os mesmos erros. Adorei conhecer o Olhar feminino, pretendo passar sempre por aqui p ver as novidades. Abração.
Rosi
http://balaiodegatocorderosa.blogspot.com/

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